Brasil atinge recorde histórico de feminicídios com média de quatro mortes por dia

Mesmo com o endurecimento das penas no Código Penal, o país encerrou 2025 com o maior índice de violência de gênero da última década, somando um crescimento de 316%.



Mulheres protestam contra feminicídios, no centro de Brasília — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil enfrenta uma crise aguda de segurança pública no que tange à vida das mulheres. Dados preliminares de 2025 consolidam um recorde sombrio: o país atingiu a marca de quatro feminicídios diários, superando todos os registros anteriores desde que a qualificadora foi tipificada em 2015. O avanço estatístico não é um fenômeno isolado, mas o ápice de uma escalada contínua que já havia sido alertada em 2024, quando o ano fechou com cerca de 1.492 casos. Em apenas dez anos, o aumento acumulado da violência letal contra mulheres chegou a 316%, expondo a insuficiência das medidas de proteção vigentes até então.


O Perfil da Violência: O Lar como Local de Risco

A análise dos dados revela que o perigo, para a maioria das brasileiras, não está nas ruas, mas dentro de casa. Cerca de 65% dos crimes ocorrem no ambiente doméstico, e em 90% das ocorrências, o autor é o atual ou ex-companheiro.


O recorte racial também evidencia uma vulnerabilidade desproporcional: 64% das vítimas são mulheres negras, evidenciando que a violência de gênero no Brasil é atravessada por questões estruturais de raça e classe. No mapa da letalidade, o Sudeste concentra os maiores volumes absolutos:


São Paulo: 233 casos (Líder nacional)

Minas Gerais: 139 casos

Rio de Janeiro: 104 casos

Bahia: 103 casos

Paraná: 87 casos




A Tragédia por Trás dos Números

Histórias recentes ilustram o padrão de possessividade que alimenta as estatísticas. Em Morro Agudo, no interior paulista, a estudante de enfermagem Jaqueline Limeira de Oliveira, de 30 anos, foi executada com seis tiros em uma lanchonete. O principal suspeito é o ex-marido, Luiz Antonio de Oliveira Cruz, que não aceitava o fim do relacionamento de dois meses e chegou a enviar áudios a amigos afirmando que desejava a morte da ex-companheira.


Já na capital paulista, o caso de Tainara Souza Santos, de 31 anos, chocou pela brutalidade. Após ser atropelada e arrastada por mais de um quilômetro na Marginal Tietê por um homem com quem teve um breve envolvimento, Tainara lutou pela vida por quase um mês e passou por cinco cirurgias de alta complexidade. Com sua morte, a investigação foi reclassificada de tentativa para feminicídio consumado.


Rigor Máximo: A Resposta do Código Penal

Diante do cenário de recordes sucessivos, o Governo Federal sancionou alterações drásticas na legislação em outubro passado. O objetivo é transformar o feminicídio em um crime de punição severa, elevando o patamar de tempo de cárcere para um dos mais altos do sistema jurídico brasileiro.


AnoTotal de VítimasMédia DiáriaStatus
20241.4644,0Recorde anterior
20251.5184,1Novo recorde histórico

A nova legislação também prevê o aumento da pena em um terço caso o crime seja cometido em situações de maior vulnerabilidade ou crueldade, como:


  • Durante a gestação ou nos três meses após o parto.
  • Contra menores de 14 anos ou maiores de 60 anos.
  • Na presença física ou virtual de descendentes (filhos) ou ascendentes (pais) da vítima.


O endurecimento das penas busca não apenas punir, mas servir como um mecanismo de desestímulo em um país onde a cada seis horas, em média, uma mulher perde a vida pelo simples fato de ser mulher.



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