CRISE OU OPORTUNIDADE?
Os impactos da Covid-19 nos pequenos negócios
Estamos diante de uma crise econômica mundial diferente das últimas crises, e o motivo é simples: esta crise não tem origem econômica, mas na saúde pública, e que acabou afetando diretamente a economia, pois a economia não sobrevive sem saúde e vice-versa. Vamos a uma metáfora: imagine um veículo. Para funcionar esse veículo precisa de vários componentes, dentre eles, o motor e o combustível. Consideremos que o “motor” é a capacidade econômica da empresa, sua atividade em si, seja ela indústria, comércio ou serviços, e o “combustível” é a demanda, é o consumo das empresas e principalmente das pessoas. Esse consumo é o combustível que alimenta o motor para que funcione normalmente, podemos dar um outro nome para o combustível, podemos chamá-lo de GIRO. Nas crises anteriores o problema era o “motor” e muitas vezes o “remédio” eram algumas medidas econômicas domésticas dos países para estimular a economia, tais como: redução de juros, subsídios fiscais e financeiros, etc. Já na crise atual o problema é o “combustível”, pois o consumo parou drasticamente devido às medidas de distanciamento social decretadas pelo Estado para conter ou retardar o avanço da contaminação da COVID-19, dando assim sustentação aos atendimentos hospitalares. Algumas empresas na tentativa de preservar o “motor” lançaram mão de alternativas como vendas online, entregas por delivery e outras iniciativas inovadoras e criativas, para quando o combustível melhorar o motor esteja pronto para voltar a funcionar de onde parou, agora numa nova versão, para atender a uma nova demanda, a um novo comportamento de consumo, de acordo com um tipo diferente de “combustível” (demanda).
Fato é que a maioria dos “motores” não vão conseguir sobreviver, desta vez pouco conseguirão fazer através da gestão, e vão simplesmente quebrar. Levantamento feito pelo Sebrae (2020) aponta que pelo menos 600 mil micro e pequenas empresas já fecharam as portas e mais de 9 milhões de funcionários foram demitidos devido aos efeitos econômicos da pandemia da COVID-19. Essa realidade apenas tornou evidente o quão mal assistidas são nossas micro e pequenas empresas no Brasil, afinal aqui a dificuldade de giro é histórica, por exemplo: em média as empresas brasileiras em 2016 (crise governo Dilma) atingiram 70% de sua capacidade de giro, ou seja, para cada R$100 que era investido, por exemplo em estoque, girava-se ou vendia-se R$70, sendo que o restante tornava-se uma missão contra o tempo no período seguinte para evitar que a empresa fizesse uma liquidação do seu estoque a preços muito inferiores àqueles quando adquiridos dos fornecedores, incorrendo assim em prejuízo contábil. Não é difícil entender porquê é assim, pois vivemos num país que oferece um ambiente hostil e desfavorável ao empreendedorismo, em especial no que se refere aos micro e pequenos negócios, graças a sua conjuntura econômica regada a alta carga tributária, escassez de crédito barato e de longo prazo para investimentos e principalmente hoje para capital de giro, política, entre outras variáveis forçando o empresariado a repassar toda esta ineficiência para o preço de seus produtos e serviços, ocasionando assim o baixo giro. Isso faz com que empreender no Brasil e obter sucesso seja realmente algo difícil.
A quarentena apenas abriu as cortinas para essa realidade, basta realizar uma pesquisa rápida e teremos um dado preocupante, em média 90% das micro e pequenas empresas não conseguem sobreviver por mais de 15 dias sem vendas, ou seja, são altamente dependentes do autofinanciamento, se param de vender param de pagar as contas, simples assim. A gestão, a falta de planejamento, estratégias financeiras e de marketing sempre foram deficiências recorrentes nesse porte de empresa justamente pelo seu perfil, pois os empresários quase sempre são consumidos totalmente pela rotina diária, pois é difícil e caro contratar mais gente, os encargos sociais são altíssimos, 1 empregado custa 2, então natural e até compreensível que falte tempo para o planejamento, apesar de que ninguém faz um orçamento anual prevendo que “em 2020 teremos uma pandemia e em maio iremos passar pelo pico da doença e o sistema de saúde vai colapsar, então vou adotar o plano B o plano C..”. Porém não podemos deixar de comentar que uma visão razoável de médio e longo prazo é de suma importância para minimizar o risco que já é bastante alto.
Volto a destacar que, esta crise não é de origem econômica e sua porta de saída desta vez não será a do investimento, talvez um ou outro em inovação tecnológica, mas o “socorro financeiro” deve ser prioridade, as empresas precisam pagar dívidas, originadas do período em que esteve de portas fechadas devido ao decreto de afastamento social. É uma crise totalmente atípica que impactou diretamente o giro e consequentemente o caixa das empresas e não a sua atividade econômica. No caso das Micro e Pequenas empresas por exemplo, que são responsáveis por mais de 50% dos empregos formais no Brasil, as medidas devem ser emergenciais para que não haja uma asfixia total no caixa. Os pré-requisitos necessários para o acesso à linhas de crédito junto as instituições financeiras precisam ser revistos e melhor comunicados. Condições de pagamento; carência; análise de crédito e taxa de juros precisam ser flexibilizados e readaptados a um novo contexto. Essas medidas são fundamentais para que não tenhamos uma crise generalizada e sem precedentes.
Entretanto, haverá sim uma necessidade por parte das empresas em adotar uma postura positiva frente a este momento, de focar mais nas alternativas, nas ferramentas, nas tecnologias disponíveis para contornar a crise, buscando sim o socorro financeiro do governo, renegociações de dívidas com credores, mas sobretudo deverão focar muito mais no COMO voltar do que no QUANDO voltar à ativa. A capacidade das empresas de responder às mudanças será testada, a capacidade de reinventar-se também, pois tudo indica que haverá um novo marco no calendário o “antes” e o “pós” pandemia de COVID-19.
Para concluir, existem rumores de que aproximadamente 30% das empresas que venderam online e usaram o esquema de entregas por delivery vão continuar adotando essas práticas, algumas serão híbridas e já cogitam um dia migrar totalmente para o digital, afinal esta migração poderia trazer economias significativas. Por último e não menos importante nesse momento é de suma importância criar um canal de comunicação direta com o cliente, que neste período de quarentena pode experienciar outras formas de consumir, é preciso entender como este cliente está pensando, como e o que pretende consumir daqui para a frente, qual o formato e o canal de vendas que prefere agora. É preciso trazer e participar o cliente de cada passo da empresa daqui para a frente, mostrando como ele é importante, afinal o cidadão que hoje está em quarentena, é o mesmo cliente que consumiu ontem e que provavelmente vai voltar a consumir amanhã, ou simplesmente um cliente novo. Será que isto é uma novidade ou simplesmente antecipação de algo que já era tendência?
Ricardo Santos
Sócio Diretor na GBV Gestão & Resultado
Consultor em Gestão (Especialista em Gestão Baseada no Valor / Valuation)
MBA em Controladoria e Finanças – FEA-RP/USP
Bacharel em Administração de Empresas – FFCL - FEI (CRA - 141499)
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